Na boa, todo mundo já sabia que ela não era perfeitamente esférica. Sabíamos que ela era achatadinha nos cantos, tinha lá um culote no equador. Mas não, não! Vivemos sob uma mentira de Photoshop. Ela é completa e definitivamente irregular, sentença de uma enxerida sonda européia, que durante 20 meses mapeou as variações da força gravitacional em todo o (ops!) globo. A somatória desses dados criou uma simulação em 3D, que nos revela calombos e reentrâncias enormes, nos acusa um sul da Índia enfiadinho num buraco onde a gravidade seria milionesimamente menor (porque mais próxima do centro da Terra? Estaria explicada a levitação dos iogues?), nos assusta com uma Rússia situada sobre um calombo convexo, a aproximar a Sibéria do Sol (seria por isso tantas histórias de presos russos que ficaram cegos em razão do reflexo da luz na neve?). Não consigo deixar de elucubrar sandices.
É notícia que mexe com meu mundo. Mexe tão profunda e literalmente, que não penso ou falo noutra coisa há horas, espécie de transtorno-obssessivo-compulsivo pela simetria perdida. Tanto que me pus a escrever esse texto, numa necessária terapia de exorcismo. Cogitei igualmente bater os globos terrestres que tenho em casa contra o chão – um deles feito de pedras semi-preciosas, bacana demais – e assim extirpar a mentira do mundo. Lesadinho, meu globo se aproximaria da grande Verdade. Doída verdade. Doida verdade.
A Terra não é redonda, não é oval, não é elíptica ou coisa que o valha. A Terra é sequelada, seja de tanto girar, seja das cicatrizes de meteoros-arrasa-dinossauro. Já sofreu dilúvio, tsunami, terremoto, maremoto e ainda por cima é terrivelmente bipolar. Como exigir dela um apuro estético? Sinto-me como um garoto que descobriu um pecadilho da própria mãe. Como Mamãe pôde me esconder isso? Mamãe não é perfeita, coitada. É rugosa, calombada, e agora, mais do que nunca, desgraçadamente adequada para os filhos que abriga: uma raça humana tão irregular, imperfeita e inconstante quanto o solo em que pisa.



